Entrevista Laura Campanér

Q?

Fale um pouco sobre seus últimos trabalhos

A.

“Recentemente eu estou curtindo integrar o Batuque das Sinhás, que é um quarteto vocal que eu formei com mais três cantoras e instrumentistas. A proposta do quarteto é tocar sambas antigos de Cartola, Dorival Caymmi, Dona Ivone Lara, Adoniran Barbosa e outros autores do samba tradicional. Nesse trabalho eu toco o surdo, porque como a gente se acompanha enquanto canta, e também por causa de a Raquel Martins, uma das integrantes ser também violonista, eu me propus a tocar um instrumento de percussão para completar a sonoridade necessária. Esse trabalho estimula minha produção musical, porque eu faço os arranjos vocais para o grupo, coisa que eu adoro”.

Q?

Você gosta mais de ser instrumentista ou interprete?

A.

“Quando estou cantando uma coisa está ligada na outra, porque acabo usando o violão para me acompanhar, mas também gosto muito de só cantar. Nas parcerias do meu último álbum PARAMUNDO, por exemplo, eu gravei canções mais românticas como Se Voar Valesse (parceira com minha irmã Eliana Campaner) e Louca Por Você (parceira com a Bia Clemente), onde pude mostrar a minha voz em melodias mais trabalhadas, coisa que eu não havia feito nos discos anteriores. Agora, quando participo de grupos musicais como instrumentista, a força das cordas me domina. Acho que é por isso que eu fui passando de um instrumento para outro. Comecei com o violão e passei para a viola caipira, para violão requinto, para o violão Tenor e nesses últimos tempos estou estudando o Koto, que é um instrumento japonês de cordas, com um som parecido com a harpa e o Sitar, que é um instrumento indiano”.

Q?

Como você explica essa mistura de estilos musicais em que você transita?

A.

“Pra mim é uma coisa natural pelo fato de minha formação musical ter começado pelo estudo do violão, que é um instrumento versátil usado para tocar os mais variados gêneros musicais e por referência, de tanto ouvir, você acaba incorporando. Também tem a ver com a linguagem musical, que eu acredito ser uma arte sem limites. Existem tantas possibilidades diferentes de se fazer música, que uma só vertente acaba não me contentando”.

Q?

Como você começou na música?

A.

“Sempre me lembro de meu pai tocando piano em casa, de um jeito meio improvisado e dos seus discos de MPB, de todos os cantores e estilos que você pode imaginar que a gente ouvia com o som “no toco”. Por influencia de meu pai, quando criança eu estudei piano. Minha irmã Eliana Campanér que é pianista também me influenciou bastante porque foi com ela que eu comecei a compor e isso me motivou a tocar um instrumento para valer, que foi o violão. Acabei me formando em violão e isso mudou tudo para mim”.

Q?

Você pode dizer o que ouvia nessa época?

A.

“Eu não tenho vergonha de falar: minha formação musical foi regada e temperada com muita MPB mesmo, com Rita Lee, Marina Lima, Gonzaguinha, Maria Bethânia, Martinho da Vila, Milton Nascimento, Elis, Beto Guedes, Raul, Clara Nunes, Caetano, Chico, Gil, Gal e Roberto Carlos também, porque não? E muitos outros que vieram depois deles também. Foi uma salada musical muito bem servida, obrigada”!

Q?

E músicas em seu instrumento? Você ouvia?

A.

“Na minha época a maior referência no violão era Egberto Gismonti. Eu tenho a coleção inteira de LPs do Egberto, que eu ouvia até “furar o disco”, como se dizia. Também me influenciou muito o Trio D’Alma, que foi um grupo muito importante na década de 80. Todo violonista queria tocar como os caras. Eu tinha alguns álbuns do Trio, lançados em fita K7, e ficava tirando as músicas deles “de ouvido”. Isso me ajudou muito a estudar. Depois, quando eu vim morar em São Paulo, acabei conhecendo e me tornando amiga do Cândido Serra, que é um dos fundadores do Trio D’Alma. Outra violonista que me influenciou foi a cantora e compositora Joyce”.

Q?

Fale um pouco sobre suas composições e parcerias.

A.

Olha: tem tanta música no mundo que a gente acaba ficando em dúvida do porque compor mais uma. Mas acho importante fazer música autoral para dizer coisas sob um ponto de vista pessoal. É uma identificação mais direta com aquilo que se pensa, diferente de quando você faz uma releitura de uma canção de outro compositor. Quanto às parcerias, eu trabalho mais com a letrista Luísa Gimenez, daqui de São Paulo. Ela tem um jeito de escrever que muito me interessa, com letras algumas vezes intimistas, outras com humor, outras sobre as mazelas da vida, assuntos bem amplos. Fiz também canções com o Guca Domenico, com a Lucina, e outros autores como o poeta Valnei Andrade”.

Q?

De onde vem esse gosto por declamações de poesia, essa aproximação com a literatura?

A.

“Uma referência forte de lembrança auditiva da poesia declamada vem dos discos da Maria Bethânia, que eu ouvia em casa com minhas irmãs.

Mas sempre colecionei livros de poesia, e lia a poesia de Drummond, Mario de Andrade, Oswald de Andrade, Ana Cristina Cesar, Ledusha, Leminski e Thiago de Mello, que vim a conhecer pessoalmente quando eu mudei para Sampa, por ter musicados alguns de seus poemas, em um trabalho com o meu grupo Proas Claras. A Alice Ruiz, que conheci recentemente, também é uma forte influência”.

Q?

Na hora de compor quais são suas influências musicais?

A.

“A Rita Lee é uma influência muito forte para mim. É um ídolo musical, tanto por ser uma mulher compositora e violonista, quanto por seu estilo de um rock mais leve, que eu me identifico muito. Mas dentro de cada estilo musical eu procuro as referências de que preciso para me inspirar. Por exemplo, a Marina Lima é uma referência no estilo dela, mas por outro lado o Almir Sater é uma referência em outro. Então é muito abrangente”.